NO SELFIE, PLEASE!

É uma alusão à história da mitológica ninfa Eco enamorada de Narciso quem apaixona-se perdidamente pelo reflexo de sua própria imagem. Assim Charles Oak retrata mulheres por quem acaba se encantando, pela atitude narcisista, muito recorrente na contemporaneidade, de se exibirem frente ao espelho ou à câmera em um ato de autoadmiração e amor próprio. A pesquisa para elaboração das obras parte da observação de um fenômeno da atualidade que vem estimulando o lado narcisista das pessoas, em especial das mulheres, que postam sua imagem na internet. Daí origina-se a ideia de abordar não propriamente o efeito causado por elas nas redes ou todos os compartilhamentos gerados, mas da necessidade de exibição que essas mulheres têm em um mundo dominado pela cultura visual. 

Saindo do universo da internet, Charles Oak busca no cerne do narcisismo o motivo para suas outras obras, desta forma, percorre os modos mais "tradicionais" e nem sempre tão exibicionistas de mulheres que ficam fazendo poses para o espelho, principal objeto de autoapreciação. Ainda dentro do espelho, passa pelas histórias macabras que são constantemente lembradas por aparições de seus reflexos, em um ato narcísico de permanência no imaginário das pessoas, chegando às substâncias essenciais para a formação de superfícies que refletem a imagem destas narcisistas, desde a água, elementos químicos e materiais para realização de objetos espelhados e câmeras digitais.

As câmeras digitais aliadas às redes sociais fazem surgir as chamadas selfies que se caracterizam como a versão atual de Narciso. Elas foram o pontapé inicial para a realização de uma série baseada em imagens de jovens que postam na internet autorretratos e que são considerados, por elas próprias, seu melhor perfil. A ênfase é dada aos rostos com super closes e expressões características como piscada e duck face. Um modo contemporâneo de se olhar e deixar o olhar do outro também contemplar. As figuras baseadas nessas mulheres são realizadas em preto e branco, depois uma sobreposição de cor, alterando a coloração inicial da imagem, como os filtros da rede Instagram.

A partir deste fenômeno, Oak parte para um mundo mais intimista e menos virtual, fora das redes sociais, tomando emprestado mulheres nuas que ficam posando em frente ao espelho, verificando detalhes de seu próprio corpo, analisando seu melhor ângulo, seduzindo a si mesmas com suas encenações. A referência maior se dá por meio de mulheres retratadas na mitologia por sua beleza e, em alguns casos, sua relação direta com o espelho. As obras se tornam mais coloridas, quentes e próximas das cores da pele do corpo, em um reflexo mais imediato e, até certo ponto, mais realista daquilo que é visto, numa tentativa de humanizar esses mitos da beleza. Na tela, o recorte do corpo que o espelho proporciona acaba delimitando o espaço e emoldurando a cena a ser vislumbrada.

A imagem refletida no espelho é considerada envolvente e sedutora que a paixão despertada por quem se olha constantemente é tão forte que acaba por originar histórias de pessoas que se perdem, são amaldiçoadas ou aprisionadas pelo espelho e que podem ser reavivadas ainda nos dias de hoje. São lendas consideradas macabras e que Charles Oak entende como figuras extremamente narcisistas que não resistem em retornar ao espelho para sobrepor sua imagem à de quem se vê. Assim as telas em tamanho mediano tomam a forma de aparições dos rostos femininos, não configurando um rosto na íntegra, mas parte dele, como se estivesse mostrando somente a materialização das aparições. Por fim as telas em tamanho menor tem uma resolução pouco definida, pois é como se houvesse o isolamento dos materiais que acabam formando o espelho e até mesmo o display das câmeras. As cores vão se dissipando, o reflexo se torna mais rudimentar, menos próximo da realidade e mais próximo do imaginário e da história de Narciso, já que ele se vê por meio das águas de um lago.

Exposição: Oak Apaixonado Por Narcisas
Galeria Amî - Aspicuelta, 259 - Vila Madalena - SP
Curadoria: Daniela Delgado